Citroën ZX: a história do excêntrico hatch que marcou os anos 90



Texto | Júlio Max, com informações da Quatro Rodas
Fotos | Divulgação

A Citroën, após retirar de linha o GSA em 1986, constatou que precisava de um hatchback para concorrer diretamente com modelos como Golf, Tipo e Astra, entre outros - um segmento muito forte no continente europeu até os dias de hoje. Antecipado pelo protótipo de competição Rally Raid em 1990, que venceu o rali Paris-Dakar, o modelo chegou no Salão de Genebra de 1991: era o ZX, com linhas traçadas pelo estúdio Bertone e que estavam plenamente alinhadas com as tendências de época.


No Brasil, o ZX começou a ser importado ao final de 1991, na versão esportiva Volcane. Visualmente, ele trazia faróis de longo alcance amarelos, frisos vermelhos nos para-choques (com spoilers) e nas laterais, aerofólio traseiro, rodas de liga leve de 14 polegadas e, opcionalmente, teto solar elétrico - um item chique, considerando que modelos nacionais considerados requintados como o Escort XR3 só tinham disponível o teto com abertura manual.


Por dentro, o ZX trazia uma série de excentricidades - algumas até comuns a outros modelos franceses da época, mas que eram peculiaridades estranhas à maioria do público brasileiro. O volante revestido em couro com frisos vermelhos não tinha buzina: ela era acionada na ponta da alavanca de faróis e piscas. Nos comandos dos retrovisores, uma surpresa: só o espelho do motorista era ajustável eletricamente, enquanto a lente do lado do passageiro era regulada por haste manual. Outra: o ZX não tinha porta-luvas, ausência que era (em parte) contornada pelos porta-objetos pelo interior.


Já o rádio, que podia ser ocultado por uma tampa, era integrado ao painel - característica apreciável na época, já que estes aparelhos eram bem mais suscetíveis a roubo. E o banco traseiro era deslizante, permitindo um porta-malas maior ao arrastá-lo para a frente, ou mais espaço para as pernas dos passageiros. O volume variava entre 229 e 326 litros. Para ter acesso ao estepe, desrosqueava-se uma chave para que a roda sobressalente descesse em uma bandeja na parte traseira.


De fábrica, o ZX Volcane trazia muita coisa que era opcional nos esportivos nacionais da época, como direção hidráulica e volante com regulagem de altura, ar-condicionado, travas e vidros dianteiros elétricos, ajuste elétrico do encosto do banco do motorista, entre outros. Opcionalmente, era possível incluir bancos de couro, freios ABS, toca-fitas e até câmbio automático, de 4 marchas.

Mecanicamente, o hatch da Citroën se destacava pelo motor 1.9 com injeção eletrônica multiponto da Bosch, que rendia 125 cavalos e 16,3 kgfm de torque, aliado ao câmbio manual de 5 marchas. Mas o mais interessante era o eixo traseiro que esterçava em até 2 graus com a compressão de coxins de borracha, o que dava a ele uma estabilidade igualada por poucos carros na época.


No ano de 1994, chegou ao Brasil o ZX Volcane com motor de 16 válvulas. As mudanças visuais incluíam rodas de 15 polegadas com pneus 195/55 e aerofólio mais proeminente com brake-light, mas o grande destaque era mesmo o motor 2.0, que passava a entregar 155 cavalos e torque de 19,0 kgfm.


Cabe aqui falar das diferenças estéticas entre o ZX de duas portas e o modelo de quatro portas. No de duas portas, as caixas de roda tinham um arco mais amplo, enquanto no modelo 4-portas elas um corte superior horizontal, rente ao para-choque de trás. Além disso, as maçanetas eram diferentes: no 2-portas, posicionava-se os dedos de lado para ter acesso, enquanto no 4-portas a mão ficava posicionada para cima. Curiosamente, as revistas de época exaltavam a visibilidade do modelo de 4 portas, mas relatavam grandes pontos cegos no modelo 2 portas.


Na parte de dentro, o grande destaque era o teclado na parte de baixo do painel, onde se apertavam os botões de 3 dígitos, e aí se liberava a partida. O ZX 94 de duas portas também trazia painel com revestimento parcial em couro (assim como volante e bancos, sendo que estes traziam regulagem lateral nos assentos dianteiros), e o rádio era assinado pela Sherwood.


No modelo 1995 veio uma pequena reestilização: com inspiração no Xantia, a grade passava a ficar maior e acomodar o duplo chevron que é símbolo da marca. Inicialmente trazido apenas da França, parte das unidades do ZX vendidas aqui passaram a vir do Uruguai.


O ano de 1996 representou o ápice de diversidade de versões do ZX no Brasil. O modelo Furio tinha carroceria de duas portas e visual jovial, mas seu propósito era mais manso: com motor 1.8 de 103 cavalos e 16 kgfm de torque, ele concorria com Golf GLX, Astra "belga" e Renault 19 RT.


Mesmo sendo a versão "básica", o Furio vinha bem equipado, com direção hidráulica (ajustável em altura), ar-condicionado, vidros verdes, lavador/limpador/desembaçador traseiro, faróis e lanterna de neblina, banco traseiro rebatível, entre outros, de série. E era possível adicionar airbag, rodas de liga leve de 14 polegadas (as mesmas do finado Volcane), rádio com toca-fitas, bancos de couro e o câmbio automático.


A versão 1.8 de 4-portas equivalente ao Furio se chamava Paris. Já o modelo 2.0 esportivo de duas portas passou a ser conhecido como ZX Coupé. Também foi importado o ZX Dakar, o modelo mais potente de todos, com motor 2.0 de 167 cavalos e 20,1 kgfm de torque: ele acelerava de 0 a 100 km/h em 8,3 segundos.


Porém, o tempo parece passar mais rápido para os carros que foram mais ousados, e o ZX já parecia antiquado diante dos rivais que estreavam na Europa, como o Fiat Bravo e o Renault Mégane, só para citar alguns exemplos. O ZX teve suas importações para o Brasil interrompidas em 1997. No ano seguinte, chegava seu sucessor, o Xsara - que dava continuidade à tradição de ousadias da Citroën. 


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