5 motivos para se opor à iminente proibição à circulação de carros a diesel em algumas cidades da Alemanha [Metralhadas do Kamikaze]


A recente decisão do Tribunal Superior Administrativo de Leipzig, que na última terça-feira (27/02) considerou procedente a legalidade dos planos em tramitação em cidades como Stuttgart e Düsseldorf para impor restrições à circulação de veículos com motor Diesel homologados em normas de emissões defasadas diante da Euro-6 já em vigor na União Européia, é um grave erro. Por mais que hoje venha havendo um cerco contra os motores de combustão interna de um modo geral, com um rigor particularmente maior com relação ao Diesel, uma simples proibição ao tráfego pode não ser tão eficaz também no âmbito da alegada "sustentabilidade". Vamos a 5 aspectos que tornam tal medida mais problemática do que inicialmente poderia parecer...


Custo de implementação: imersos na síndrome de vira-lata tão comum no Brasil, às vezes nós acabamos por ignorar as dificuldades que cidadãos de países mais desenvolvidos e com renda per capita superior à nossa podem passar. De fato, além do crédito facilitado, o preço de um carro novo tecnicamente superior ao de similares vendidos no Brasil é mais razoável na Europa. No entanto, tendo em vista que a depreciação média é mais severa no mercado de usados, quem em sã consciência há de supor que o proprietário de um modelo já beirando os 20 anos como o Alfa Romeo 146 1.9 JTD certificado na Euro-3 não teria um impacto considerável no orçamento familiar ao se ver obrigado a trocá-lo por algum veículo enquadrado na Euro-6? Mesmo um modelo novo de segmento imediatamente inferior, como o Peugeot 208, quando equipado com motor Diesel mesmo na versão mais barata pode se aproximar facilmente de uma faixa de custo entre 8 a 10 vezes superior ao valor de revenda do usado a ser substituído. Na pior das hipóteses, seria mais fácil o cidadão se ver forçado a recorrer a uma moto pequena com side-car, como provavelmente fazia o bisavô antes do lançamento do Fusca...


Impacto ambiental da produção de um veículo novo comparado a uma extensão da vida útil de um antigo em bom estado de conservação: aí está outro ponto bastante controverso, afinal o gasto de energia nem sempre proveniente de fontes limpas tanto no beneficiamento de matérias-primas quanto na fabricação de um carro 0km seriam superiores ao que seria necessário para eventualmente fazer a adaptação de um motor mais novo em substituição ao original que já estivesse precisando de uma retífica num veículo mais antigo. Ou mesmo que se recorresse somente a uma retífica, levando em conta que alguns motores apresentam um projeto modular básico compartilhado entre diferentes gerações de um mesmo veículo, como o DV6 que equipa opcionalmente o Citroën Berlingo em diversas configurações e níveis de controle de emissões, soa ainda mais infeliz a proposta de restringir a circulação de alguns exemplares que possam receber com relativa facilidade uma atualização tanto a nível de componentes quanto do software de gerenciamento eletrônico do motor.


Negligência diante da possibilidade de fomentar o uso de combustíveis alternativos: com ênfase principalmente em modelos ainda equipados com motores de injeção indireta, como foi o caso da Ford Courier Kombi equipada com o motor Endura-D e da 1ª geração do Peugeot Partner com o motor DW8, torna-se ainda mais fácil implementar o uso direto de óleos vegetais como combustível veicular, tanto novos quanto reaproveitados de usos culinários. Só de poupar energia e insumos químicos que seriam necessários no refino do petróleo ou na produção de biodiesel, já seria uma boa medida. Vale lembrar que é justamente na Alemanha que está sediada a empresa Elsbett, que não só domina a tecnologia para conversão de motores Diesel tradicionais ao uso do óleo vegetal como também desenvolveu o polêmico motor Elko Multifuel que era justamente otimizado para recorrer a esse combustível. E mesmo que fôssemos considerar o biodiesel, convém destacar que em proporções acima de 20% de mistura ao óleo diesel convencional (B20) podem ocorrer problemas para vaporizar durante o processo de autolimpeza dos filtros de material particulado aplicados a veículos com motor Diesel mais moderno, e que a Peugeot já usava ao menos a partir de 2000 em versões equipadas com injeção direta common-rail gerenciada eletronicamente (HDi).


Dois pesos e duas medidas: num momento em que o Diesel figura como alvo de uma caça às bruxas, há de se levar em conta o quão contraditório se torna ignorar o incremento nos índices de emissões de óxidos de nitrogênio e até mesmo de material particulado fino por motores a gasolina da atual geração "downsizing", como o 1.0 Ecoboost usado pela Ford e o 1.0 TSI da Volkswagen. Além das taxas de compressão mais elevadas e da proporção menor de combustível em função da massa de ar (mas que nesse caso eu me recuso a chamar de "mistura" pelo fato do combustível ser injetado diretamente nas câmaras de combustão ao invés de ser admitido junto com o ar) levarem a um maior aquecimento, que favorece a formação dos óxidos de nitrogênio, a gasolina acaba não tendo uma vaporização tão completa como ocorreria em motores de concepção mais tradicional com injeção sequencial no coletor de admissão. No entanto, apesar de tais características que antes eram vistas como um calcanhar-de-Aquiles dos motores a diesel estarem se alastrando para os a gasolina, não se vê o mesmo rigor tanto em iniciativas visando proibir a circulação de modelos enquadrados em normas já defasadas quanto numa eventual obrigatoriedade de recorrer a sistemas de controle de emissões tão complexos quanto os que se fazem presentes nos equivalentes a diesel...


Impacto sobre operadores comerciais e o custo de bens e serviços: é inevitável que logo venha à mente o estereótipo do "white van man" tão explorado pelos britânicos nos mais variados contextos, mas que também se mostra pertinente diante da perspectiva de uma proibição ao uso de veículos que não servem apenas como um mero "brinquedo", e acabam sendo importantes ferramentas de trabalho para os respectivos proprietários. Afinal, quem recorre a um furgão como o Fiat Ducato de 2ª geração ou um Opel Combo B dificilmente o faz por "ostentação", e sim por priorizar custos de aquisição e manutenção reduzidos por fatores como uma mecânica mais simples (especialmente em exemplares de fabricação anterior a 2000 ainda dotados de injeção mecânica e às vezes até aspiração natural). Mesmo com iniciativas como a implementação de "corredores azuis" para fomentar a oferta do gás natural como um eventual substitutivo para o óleo diesel ao longo dos principais eixos de transporte rodoviário europeus, bem como a consolidada experiência alemã na produção de biogás/biometano que já pode servir de pretexto para uma transição da matriz energética ao passar dos combustíveis fósseis para uma opção renovável, o custo inicial de tais medidas ao dependerem de uma eventual renovação forçada de frota (ou ao menos a conversão dos veículos para o gás) teria um custo inicial a ser invariavelmente repassado ao consumidor final de produtos ou usuário dos serviços de pequenos empreendedores individuais. Até mesmo o escoamento da produção de pequenas propriedades rurais poderia ser impactado, tendo em vista que alguns agricultores que possuam um veículo a diesel tido como defasado poderiam passar a depender de atravessadores para chegar nos mercados consumidores de grandes regiões metropolitanas onde a restrição à circulação estaria para ser implementada.


Também é inegável traçar um paralelo com o projeto de lei com pretensões semelhantes apresentado em São Paulo por um vereador petista, que no caso brasileiro tenderia a ser mais grave em função do uso do óleo diesel convencional ainda ser predominantemente direcionado a aplicações profissionais, mas de qualquer forma ambas as propostas se revelam uma grave ameaça às liberdades individuais e à segurança energética das respectivas áreas de abrangência.

Sobre o autor

Daniel Girald, gaúcho de Porto Alegre, mais conhecido como Kamikaze, estudante de Engenharia Mecânica com alguma experiência anterior em mecânica automotiva e de motocicletas, contribuindo no Auto REALIDADE para abordar temas técnicos escolhidos mediante sugestões de leitores, ou aleatoriamente entre as novidades mais destacadas no mercado como na estréia da coluna. Defensor ferrenho da liberação do uso de motores a diesel em veículos de qualquer espécie.

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