A trajetória do VW Gol GTi, pioneiro da injeção eletrônica no Brasil


Texto | Júlio Max
Fotos | Júlio Max, Aírton Santos e Divulgação

O mercado automotivo brasileiro da década de 1980 acompanhava em um ritmo mais devagar as evoluções pelas quais os carros passavam no "Primeiro Mundo". Um dos exemplos de um item que demorou a se popularizar em nosso País foi a injeção eletrônica de combustível do motor. Este item, que já estava presente em modelos como o Mercedes-Benz 300 SL de 1955 e o Chevrolet Corvette de 1957, foi se popularizando em modelos norte-americanos, japoneses e europeus a partir da segunda metade da década de 1970; nos anos 1980, a derrocada do carburador nestes mercados foi ainda mais acentuada. Mas aqui no Brasil, vigorava a Lei de Informática, que restringia a importação de componentes eletrônicos (incluindo aí a injeção de combustível). Dessa forma, o GTi nasceu para ser um modelo de produção limitada - mas seu sucesso foi tamanho que permaneceu no mercado por 11 anos.
Livro Clássicos do Brasil, Editora Alaúde. Foto: Du Oliveira

A Volkswagen chegou a projetar em 1983 um protótipo do GTi, que trazia modificações como molduras pretas nas janelas laterais, logotipos GTI vermelhos na tampa do porta-malas e nas laterais traseiras, além de rodas de liga leve, parte inferior da carroceria escurecida e ainda lanternas semelhantes às do Voyage da época com moldura de placa preta. O paradeiro deste exemplar é desconhecido.


Mas o Gol GTi surgiu de fato somente no ano de 1988, sendo uma das principais novidades reveladas no Salão do Automóvel de São Paulo daquele ano (na época, realizado no Parque Anhembi). Com o status do topo da cadeia da linhagem Gol, o GTi coexistiu pacificamente com o esportivo carburado GTS, lançado em 1987. A produção em série do Gol com injeção eletrônica iniciou em janeiro de 1989. Sua sigla era formada pelas iniciais de "Gran Turismo injection".


O principal diferencial do GTi era o motor 2.0 AP, de 8 válvulas e montado na posição longitudinal, com a injeção Bosch LE-Jetronic. Movido a gasolina em uma época do início do declínio dos carros movidos a álcool, o motor com injeção proporcionava vantagens como maior facilidade para dar partida e menor consumo de combustível. Rendia 120 cavalos a 5600 rpm, com torque de 18,4 kgfm a 3200 rpm. A velocidade máxima do Gol GTi era de 185 km/h, e o hatch acelerava de 0 a 100 km/h em 8,8 segundos. Outro avanço técnico que o GTi estreou foram os freios a disco ventilados na frente.


O sistema LE-Jetronic analógico do Gol GTi era do tipo múltiplo, com uma válvula injetora para cada cilindro. Havia duas bombas elétricas de combustível, que era enviado sob pressão para uma galeria de distribuição – desta, a gasolina era borrifada pelos injetores nos dutos de admissão de cada um dos quatro cilindros.

O sistema de ignição mapeado controlado por computador EZ-K era outra inovação do Gol GTi. Sensores eletrônicos mapeavam o motor para determinar o momento exato de disparar as centelhas para a ignição. Controlava ainda o avanço da ignição e era o responsável por evitar que o motor ultrapassasse o regime máximo de giro, de 6300 rpm.


Além das inovações computadorizadas, foram implementadas ao motor do Gol GTi várias mudanças mecânicas. Entre elas, tuchos hidráulicos (para reduzir ruídos e dispensar regulagens), novos pistões, filtro de ar de maior capacidade, coletor de admissão, bomba de óleo de maior vazão, injetores de óleo no bloco do motor para refrigerar os pistões e novo comando de válvulas (as de admissão passaram de 38 mm para 40 mm de diâmetro). A taxa de compressão subiu de 8,9:1 para 10:1 e o escapamento foi redesenhado. A caixa de câmbio (manual de 5 marchas) também recebeu alterações. A Volkswagen adotou um esquema de assistência técnica com plantão de 24 horas, via telefone exclusivo.


Todos os Gol GTi fabricados em 1988, 1989 e 1990 eram pintados na cor perolizada Azul Mônaco, uma tonalidade exclusiva - a única coloração do modelo que nunca foi aplicada a outro Volkswagen. A decoração da carroceria incluía laterais e para-choques pintados em cinza com filetes em Azul Cobalto, aerofólio exclusivo com arestas arredondadas, lanternas escurecidas, antena de teto e rodas de liga leve "Silverstone" de 14 polegadas, com raios que lembravam gotas d'água e calçadas com pneus 185/60. Os primeiros exemplares não tinham opção de ar-condicionado, item que surgiu como opcional em 1989 - aliás, era o único item que era pago à parte.


Entre os diferenciais internos do Gol GTi estavam os bancos dianteiros Recaro com apoios de cabeça vazados e tecido cinza-escuro com detalhes em azul, volante revestido de couro e iluminação vermelha dos instrumentos. A lista de equipamentos de série incluía o rádio toca-fitas Rio de Janeiro PLL, além de vidros dianteiros e retrovisores elétricos, relógio digital, ajuste de inclinação para o assento do motorista, entre outros.


Apesar do conjunto marcante do Gol GTi, o modelo era muito caro: sua potência declarada extrapolava os 100 cavalos (o que fazia a incidência de impostos sobre o carro ser maior na época) e seu preço, no começo de 1989, era 56% superior ao do Gol GTS. Em 1990, chegavam ao Brasil outros modelos nacionais dotados de motores com injeção eletrônica: o Santana Executivo e o Monza 500 EF; posteriormente naquele mesmo ano, o País viveu o frisson da chegada dos carros importados das mais diversas montadoras e origens.


Para o ano-modelo 1991, o GTi passou pelas modificações comuns a toda a linha Gol, recebendo a frente alongada em 3 centímetros com faróis mais estreitos e integrados à nova grade, bem como as rodas de liga leve de 14 polegadas "Acapulco", popularmente conhecidas como Orbital (estiveram presentes no carro-conceito VW Orbit). Naquele ano, o hatch passou a ter duas opções de cores: Azul Astral e Cinza Nimbo. No final daquele mesmo ano, as rodas de liga leve BBS de 14 polegadas passaram a constar na lista de opcionais, enquanto o ar-condicionado se tornou equipamento de série.


Na linha 1992, o Gol GTi passou a ter quatro opções de cores para a carroceria: duas opções de vermelho (Daytona e Colorado) e duas alternativas de cinza (Andino e Nimbo). O esportivo também passou a ter catalisador, para atender às então novas normas antipoluição, o que fez os números de potência e torque serem reduzidos.


No ano de 1993, o GTi manteve as cores Vermelho Sport e Cinza Spectrus, ganhando as opções Amarelo Sunny e Branco Nacar. Os modelos 1993/94 e 94/94 passaram a ter direção hidráulica. Já os toca-fitas Bosch foram substituídos em 1994 pelo aparelho Volksline/FIC. Para a linha 94, o GTi voltou a ter duas opções de cor vermelha (Sport e Styllus), mantendo o tom Branco Nacar e passando a ter a opção Preto Universal.


O ano de 1994 marcou também a primeira mudança de geração do VW Gol, que ocorreu por etapas. A versão GTS foi extinta e o posto de modelo topo-de-linha foi ocupado pelo GTI 8 válvulas. Com carroceria toda nova e mais aerodinâmica e arredondada, o Gol GTI (agora com a sigla escrita toda em letras maiúsculas, com o significado alterado para "Gran Turismo International") perdia os faróis de milha redondos e saltados do para-choque, ganhando a identificação da versão na grade frontal, em plaquetinhas nos frisos laterais e na tampa traseira. 


Outros diferenciais estéticos da versão eram o aerofólio traseiro com brake-light embutido, frisos e saias laterais exclusivas, além das novas rodas de 14 polegadas e da icônica luz de neblina traseira, somente no canto esquerdo do para-choque. Por dentro, o GTI tinha volante de três raios exclusivo, padronagem diferenciada dos bancos (Recaro na frente, com extensões para as coxas) e forros de porta, com quadrados azuis, verdes e roxos, além do computador de bordo exibido na tela abaixo do conta-giros, pomposamente batizado como "On Board Computer".


O GTI "bola" seguia a tradição de vir com diversos equipamentos, contando com direção hidráulica, travas, vidros e retrovisores elétricos, rádio toca-fitas, para-brisa degradê com vidros verdes, banco traseiro bipartido, volante e alavanca de câmbio revestidos de couro, entre outros. Os únicos opcionais eram ar-condicionado, CD player e fechamento dos vidros associado ao travamento das portas.


A principal modificação mecânica foi a atualização da injeção eletrônica: antes single-point, passou a ser multipoint digital, mais inteligente: por exemplo, o sistema desligava o ar-condicionado quando o motor era mais exigido. Além disso, a diminuição no coeficiente de arrasto aerodinâmico de 0,45 para 0,34 ajudou na melhoria da performance. O AP 2000 tinha rendimento de 109 cavalos e torque de 17,0 kgfm a 3000 rpm. Mas a Volkswagen ainda tinha uma carta em sua manga.


No final de 1995, a Volkswagen lançou no Brasil seu primeiro modelo com motor de 16 válvulas. O Gol GTI 16v chamava atenção pelo ressalto no capô, com formato oval, possuindo 2,5 centímetros na parte mais alta. Ele foi feito para acomodar melhor o motor, que passava a ter duplo comando de válvulas no cabeçote. O rendimento subia para 141 cavalos e 17,8 kgfm de torque a 4000 rpm. A velocidade máxima era de 206 km/h e a aceleração de 0 a 100 km/h ocorria em 8,8 segundos.


Mais completo que o GTI 8v, o modelo 16v trazia poucos opcionais: freios ABS, alarme com acionamento à distância, CD player e o pacote Colour Concept de interior revestido de couro com detalhes em preto e vermelho (item hoje muito raro). Para quem não quisesse tanta extravagância, era possível pedir os revestimentos de couro em preto. No mais, os demais equipamentos vinham de fábrica, como ar-condicionado, computador de bordo, direção hidráulica, rádio com toca-fitas, alarme, para-brisa degradê, vidros dianteiros, travas e retrovisores elétricos, apoios de cabeça vazados, brake-light, entre outros.

Em 1997, o hatch esportivo passou a ter bancos dianteiros mais simples e ganhou a companhia da Parati GTI, inicialmente oferecida com opção de duas portas.


Na linha 1998, o Gol GTI 16v passou a ter opção de quatro portas, com as mesmas características externas do modelo de duas portas, com exceção das saias laterais. As rodas eram um prenúncio das novidades que viriam com a "Geração III" no ano seguinte.



Algumas raras unidades vieram opcionalmente com airbag para motorista e passageiro - a bolsa inflável do lado direito ocupava o espaço do porta-luvas.


Veio o ano de 1999 e o Gol passou por mais uma reestilização, abrangendo frente, traseira e painel. O GTI 16v foi mantido (na época, a Volkswagen preferiu eliminar todas as versões, restando ao consumidor optar por comprar um Gol com motor 1.0, 1.6, 1.8 ou 2.0 e depois equipá-lo ao seu gosto), mas a versão esportiva perdera bastante prestígio. Em nome da maior economia de produção em escala, ele já não tinha tantos diferenciais estéticos em relação aos demais modelos, com exceção dos emblemas na tampa traseira e também nas portas de trás, um dos poucos charmes exclusivos.



Nesta fase, o GTI 16v só estava disponível com quatro portas (assim como a Parati GTI). Nem mesmo as rodas de 15 polegadas eram exclusivas, passando a poder equipar qualquer Gol com o pacote "Estilo" de opcionais. Ao menos o motor tinha o rendimento de 145 cavalos, com 18,4 kgfm de torque. A aceleração de 0 a 100 baixou para 8,7 segundos, com velocidade máxima de 206 km/h. De série, o GTI da virada do milênio tinha direção hidráulica, airbags frontais, freios ABS, computador de bordo, vidros/travas/retrovisores elétricos e alarme com controle à distância. Opcionalmente, podia receber bancos de couro e CD Player.


Com este desprestígio e as vendas muito fracas, ele deixou de ser produzido no fim do ano 2000, coexistindo por poucos meses com o Gol 1.0 Turbo (com motor de 112 cavalos) que havia sido lançado naquele mesmo ano. A própria versão Turbo durou pouco tempo: apenas até 2003.

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