Como é dirigir o Fiat Marea 2.4 HLX manual 2003!

Texto e Fotos - Júlio Max, de Teresina (PI)
Matéria feita em parceria com @showcarsthe

É, minhas amigas e meus amigos. Chegou o momento de dirigirmos e contarmos detalhes para vocês de um dos carros mais emblemáticos e zoados do nosso Brasil. Um veículo que é mencionado toda vez que é filmada uma explosão, e que já motivou a criação de centenas de memes. Sim, a matéria é sobre o Fiat Marea.

Nascido para suceder o Tempra, o Marea (nome que significa maré em italiano) foi lançado nos mercados europeus em 1996 e dois anos depois, em junho de 1998, começou a ser vendido no Brasil, nas carrocerias sedã e perua (a Weekend). De início, o sedã era fabricado em Betim (MG) e a perua vinha importada da Itália, com a produção nacional iniciada meses depois do lançamento. Aqui no Brasil, Marea e Tempra coexistiram por algum tempo, uma prática comum no nosso mercado, sendo que o sedã veterano chegou a ter modelo 1999. 

Quando o Marea chegou ao Brasil, ele tinha as versões ELX e HLX com motor 2.0 Fivetech (cinco cilindros) de 142 cavalos. No Natal de 1998, a novidade era a versão SX, com um downgrade nos equipamentos de série e no motor 2.0 para render 127 cavalos (na época, carros com mais potência do que isso eram enquadrados em uma faixa superior de impostos). Em 1999, chegaram o modelo 2.0 Turbo e o 1.8 16v de quatro cilindros. E, em julho de 2000, foi lançado o Marea 2.4, que substituiu a versão 2.0 aspirada, em versões ELX e HLX. É justamente um modelo HLX 2.4 que o Auto REALIDADE, em parceria com o Show Cars Elite, conseguiu para esta matéria.

O Marea se destacava pela ousadia de suas linhas mais harmônicas e aerodinâmicas, abandonando os traços retos e a traseira alta do Tempra. Os faróis de duplo refletor eram bem menores do que o comum na época e a grade frontal também era estreita - enquanto o para-choque trazia entradas de ar maiores para o motor. 

O cuidado para obter o menor arrasto do vento se reflete em detalhes como a carenagem do limpador dianteiro do passageiro, os vincos no capô e as protuberâncias nas borrachas dos vidros dianteiros. Esteticamente, poucas coisas diferenciam a versão 2.4 das demais, como os emblemas nos para-lamas, junto às luzes laterais de pisca, e os cromados na grade dianteira e na moldura da placa na traseira.

Este exemplar conta com algumas modificações: rodas de 17 polegadas (estilo Bravo Absolute/Sporting) com pneus 205/40, suspensão rebaixada, filtro e escape esportivos, DVD Pioneer com tela retrátil e câmera de ré, chave-canivete, revestimentos de couro, instrumentos de fundo branco (da versão Turbo), além de faróis de xenônio e iluminação de teto, porta-luvas e de placa em LED.

A traseira do Marea foi o principal alvo de um face-lift realizado para a linha 2002, desenvolvido no Brasil. Estas lanternas vieram de seu primo classudo italiano, o Lancia Lybra, e casaram muito bem com o novo estilo da tampa traseira, maior que a do modelo anterior. Apesar da parte de trás ser bem-desenhada, o porta-malas levava só 430 litros, menos que um Ford Ka Sedan dos dias atuais. Pelo menos o estepe vinha com roda de alumínio.

As formas arredondadas também são predominantes no interior, cheio de soluções modernas para sua época. Os encostos de cabeça traseiros, por exemplo, tinham formato pensado para não atrapalharem a visão traseira quando embutidos. Ele também trazia vários porta-objetos pela cabine, incluindo um porta-revista no console para o passageiro dianteiro, um porta-copo embutido na tampa do porta-luvas, um porta-objetos sob o apoio de braço para o motorista e uma enorme niqueleira entre os bancos da frente, que acomodava até 19 moedas.

Em termos de acabamento, o Marea traz couro no volante, painéis de porta (em uma extensa área) e bancos. Mas, diferentemente do que se poderia imaginar para um modelo deste segmento, não temos vastas áreas de materiais macios ao toque no painel: só a cobertura do airbag do passageiro possui esse material. O forro de teto tem o aspecto de Fiats bem mais simples. Ao menos as peças plásticas são bem-montadas e sem rebarbas.

O quadro de instrumentos, com a assinatura Veglia Borletti, trazia quatro instrumentos analógicos: indicador do nível de combustível, conta-giros, velocímetro e marcador de temperatura do motor. Dentro do velocímetro, uma pequena tela digital exibia hodômetro total e parcial. Junto com o conta-giros havia o indicador de porta aberta, já individual. E na parte de baixo dos instrumentos estão as luzes-espia, ou check-control. Ah, e na base desse quadro, havia o ajuste interno da altura dos faróis e também o ajuste de intensidade do brilho dos instrumentos.

O volante de quatro raios é uma das peças mais inconfundíveis do Marea, com o mesmo estilo para todas as versões, do início ao fim de sua carreira. Na versão HLX, a peça conta com botões para controle de som e ajuste de altura da coluna de direção.

O Marea vinha de fábrica com a clássica chave azul da Fiat, com fechamento das portas associado ao travamento dos vidros, e que a partir da linha 2002 passou a ter um chaveiro com a função de localizador do veículo, que disparava um alarme por 5 segundos, junto com o acendimento dos piscas. Hoje esse recurso parece bastante trivial, mas na época era uma novidade digna de nota.

Interessante no Marea era que, mesmo sem visor digital para o ar-condicionado, havia graduação numérica da temperatura e também o modo Auto, que ajusta ventilação e temperatura de acordo com as condições do ambiente. Já no botão de circulação de ar, o modo Max/Def faz o desembaçamento automático dos vidros da frente e de trás.

A lista de equipamentos da versão HLX linha 2002 contemplava airbags frontais, direção hidráulica, ar-condicionado, volante e banco do motorista com ajuste de altura, vidros elétricos com função um-toque, anti-esmagamento e alívio da pressão interna (quando uma das portas dianteiras é aberta, o vidro baixa alguns centímetros), travamento das portas em movimento (a 30 km/h), retrovisores elétricos, alerta sonoro de velocidade programada excedida, Follow me Home (faróis permanecem acesos após o desligamento do carro; o tempo podia ser programado de 30 segundos a 5 minutos), para-brisa degradê, faróis e lanterna de neblina, som com 6 alto-falantes, entre outros itens.

Opcionalmente, era possível incluir revestimentos de bancos e volante em couro, teto solar elétrico, freios ABS, airbags laterais (junto com eles vinha o banco dianteiro com regulagens elétricas), lavadores de faróis e apoio de cabeça com cinto de três pontos para quem senta no meio do banco traseiro.

A versão 2.4 era uma opção para quem fazia questão de um motor mais torcudo: o 2.4 era 18 cavalos mais potente que o 2.0 aspirado (160 cavalos contra 142 cv) e o torque entregue era maior (21,0 kgfm ante 18,1 kgfm), para enterrar o pensamento de que motores com mais de 8 válvulas só rendiam bem em altas rotações. 

Com 20 válvulas e os cinco cilindros em linha que lhe garantiam um ronco inconfundível, o Marea 2.4 vinha com o acelerador eletrônico, que começava a se popularizar nos automóveis brasileiros. A tampa do motor trazia o nome VIS, que em inglês é a sigla para o coletor de admissão variável, mecanismo que colaborava para que 95% da força fosse entregue a partir de 1500 rpm, embora o torque só surgisse por inteiro a 3500 rpm. Mecanicamente, também vale destacar a suspensão independente nas quatro rodas (com subchassis para melhor absorção de irregularidades do piso) e os freios a disco, ventilados na frente e sólidos atrás - os mesmos da versão Turbo.

De início, a versão 2.4 chegou somente com câmbio manual, de 5 marchas. A transmissão automática, de 4 marchas e com os modos Sport e Ice (para neve), veio só no fim do ano de 2001. Segundo a Fiat, a versão manual acelerava de 0 a 100 km/h em 8,6 segundos e atingia 210 km/h, bons números para um sedã de 1300 quilos. 

A história de que o manual do proprietário do Marea recomendava as trocas de óleo de 20.000 em 20.000 quilômetros é conhecida e ajudou a consolidar a fama de "bomba" do modelo. Mas afinal, porque a Fiat do Brasil recomendava aquilo? A explicação: este intervalo entre as trocas era pensado para o mercado europeu, sem considerar fatores como a gasolina que só nós temos, com etanol misturado. Posteriormente, a marca repensou o plano de manutenção do carro, mas aí já surgiam os casos de motores com formação e acúmulo de borra. Esse fato, somado a características como a correia dentada ter acesso muito difícil, as revisões caras e a falta de mão de obra especializada em mexer com motores deste tipo, fizeram o Marea ser alérgico a mecânicos até então habituados a trabalhar com carros bem mais simples. 

Na Europa, o Marea saiu de linha em meados de 2002. Lá, o sedã não teve sucessor direto, enquanto a Weekend foi substituída pela Stilo Multiwagon. Já aqui no Brasil, a linha Marea resistiu por mais alguns anos, recebendo o pacote Connect (com Bluetooth e um celular de brinde) e, no ano de 2005, uma leve reestilização, com redesenho de grade e rodas, além da atualização de emblemas na traseira e do estilo das lanternas, que passaram a ser parcialmente escurecidas. Foi neste mesmo ano que ele passou a ter a versão 1.6, de quatro cilindros e 106 cavalos. Em 2006, a Weekend saiu de linha, com o segmento de station wagons médios já em declínio no Brasil.

Em março de 2007, o Marea Turbo saiu de linha assim que chegavam ao mercado os (então) novos Civic Si e Golf GTI. Foram apenas 2690 unidades produzidas, somando sedã e perua, da versão mais esportiva do Marea, o que já faz dele hoje um carro colecionável. As demais versões continuaram a ser produzidas até novembro de 2007 - sua fabricação foi encerrada para dar prioridade ao recém-lançado Punto, após 54.781 unidades produzidas. A Fiat bem que tentou, com o Linea, concorrer no segmento de sedãs médios, mas não obteve sucesso.

Impressões ao volante

Ao entrar no Marea, além da posição de dirigir mais baixa do que nos carros atuais, chamam a atenção os retrovisores externos, muito pequenos. Mas os espelhos permitem ter uma visualização até boa do tráfego. A direção hidráulica torna as manobras fáceis e o volante, com couro liso, tem pegada agradável.

O câmbio, como em praticamente qualquer outro Fiat manual, requer alguns quilômetros para adaptação. Mas no Marea, logo o motorista se dá bem com o conjunto. O curso da alavanca é um pouco menor que nos modelos atuais da marca, e as marchas entram suaves. Além disso, usar seu pedal da embreagem é menos cansativo do que se poderia supor. Com cinco marchas, a ré fica atrás da quinta marcha e entra "direto".

O conjunto de suspensão mantém o Marea confortável mesmo com as rodas 2 polegadas maiores do que as originais e o rebaixamento da altura de rodagem. Apesar da unidade raspar um pouco em lombadas, os trancos não são transmitidos aos ocupantes.

Nas aceleradas, o 2.4 do Marea entrega força satisfatória mesmo em baixas rotações: basta pisar que ele deslancha. A entrega de força é bastante previsível neste motor aspirado: o que assusta mesmo é a velocidade com a qual o ponteiro que indica o nível de combustível baixa com o pé fundo no acelerador...

Durante nosso test-drive, chamou a atenção a quantidade de pessoas que olhavam, apontavam e tiravam fotos do "nosso" Marea. De fato, o exemplar que dirigimos estava em um nível muito bom de conservação, considerando a dificuldade de se manter um Marea nos dias de hoje. Um fato que corrobora o fato de que, apesar de ser constantemente chamado de "bomba", o sedã da Fiat desperta bastante admiração.

Vem conferir a Galeria de Fotos do Fiat Marea HLX 2.4 manual 2003!


Comentários