Peugeot Hoggar 1.4 XR 2011: a picape que foi injustiçada pelo Brasil


Texto e fotos | Júlio Max, de Teresina - PI
Matéria feita em parceria com @showcarsthe

A Peugeot, ao invés de lançar no Brasil exatamente o mesmo 207 disponível na Europa, preferiu aplicar uma extensa reestilização no 206, inspirada no então novo modelo europeu, e nomeá-lo como "207" em nosso mercado a partir de 2008. Mas a marca também apostou em derivações inéditas de carroceria do compacto. Além dos já existentes modelos hatchback e SW, chegou o sedã Passion, e, dois anos mais tarde, em 2010, a Hoggar - uma aposta ousada da marca em um segmento em que ela ainda não tinha histórico: o de picapes compactas (que, na época, era disputado por Chevrolet Montana, Fiat Strada, Volkswagen Saveiro e Ford Courier).


O nome Hoggar, que se pronuncia "ôgár", foi primeiramente aplicado em um carro-conceito off-road da marca em 2003 e batiza uma cadeia de montanhas na Argélia, dentro do deserto do Saara. A picape era oferecida em três versões no Brasil: a X-Line, mais básica e voltada para trabalho; a XR, com apelo mais urbano, e a Escapade, com apetrechos aventureiros e a única disponível com motor 1.6. Até as portas dianteiras (aproveitadas do hatch de 4 portas), a picape era praticamente igual ao 207. 


Na parte traseira, aproveitou-se a suspensão (que era independente com barras de torção transversais) e parte da estrutura do furgão Partner. Para arrematar, as grandes lanternas foram transplantadas da 1007, uma micro-minivan com portas dianteiras corrediças que teve ciclo de vida curto, entre 2005 e 2009. Quando a Hoggar nasceu, a 1007 já estava morta.


Precisamente 65,3 centímetros mais comprida que o Peugeot 207, a Hoggar tinha comportamento ao rodar mais assemelhado ao de um carro de passeio do que de um veículo voltado para trabalho, e seu interior também era praticamente idêntico ao do 207. Atrás dos dois bancos, havia um espaço de 120 litros que poderia acomodar a tampa traseira caso esta fosse desmontada; havia também uma rede porta-objetos e as ferramentas para a troca do pneu. Para baixar o estepe, era necessário que a tampa traseira estivesse aberta, uma engenhosidade que posteriormente foi copiada por outras picapes.


Mas o maior destaque era a caçamba, que tinha o maior volume entre as picapes de cabine simples daquela época (1151 litros), além de seis ganchos externos e outros quatro internos. Porém, a carga útil admitida na Hoggar XR, de 660 quilos, era inferior em relação a todas as outras picapes do segmento, com capacidades de carga superiores a 700 kg. Na Hoggar, os destaques eram as caixas de roda, que invadiam pouco o compartimento da caçamba, e o degrau lateral, uma "inovação" que nem era tão nova assim, pois já existia na Chevrolet Montana (2003) e na Volkswagen Saveiro "G5" (2009). Mas, na picape da Peugeot, também era por ele que saía o ar da cabine. Havia, ainda, apoios para o pé no para-choque traseiro.


Por fora, a versão XR se diferenciava da versão pé-de-boi X-Line por ter barras de teto prateadas, faróis com máscara negra, pneus de uso misto e calotas integrais (substituídas por rodas de liga leve neste exemplar).


Esta Hoggar XR 2011, na cor sólida Vermelho Aden, é o veículo de uso diário de Herman Lima, do Show Cars Elite. A picape traz o conhecido motor 1.4 8 válvulas Flex de 80 cavalos com gasolina e 82 cavalos com etanol, rendendo 12,8 kgfm de torque com ambos os combustíveis (a 3250 rpm). 


Esse propulsor estava aliado ao câmbio manual de 5 marchas, com bons engates, ré que "entra direto" e as duas primeiras marchas encurtadas em relação ao 207. Segundo a Peugeot, a picape acelerava de 0 a 100 km/h em 14,4 segundos e atingia a velocidade máxima de 156 km/h.


A cabine é simples, mas com estilo agradável. Painel e forros de porta são inteiramente forrados de plástico, com diferenças na coloração e nas texturas para quebrar a monotonia visual na cabine, assim como se vê nas estampagens dos bancos de tecido. A lista de equipamentos de série da Hoggar XR incluía faróis e lanterna de neblina, janela traseira com abertura corrediça, alerta sonoro de faróis acesos e de chave deixada na ignição, alça fixa para o passageiro dianteiro, tomada de 12 Volts no console, protetor de cárter e direção hidráulica. Opcionalmente, ainda era possível incluir airbag duplo, ar-condicionado, alarme, rádio, travamento das portas em movimento e vidros elétricos que podiam ser acionados segundos após desligar o veículo, sendo que os botões dos vidros ficavam entre os bancos dianteiros para economizar fiação e peças (eram necessários só 2 botões nesta condição, ao invés de dois botões na porta do motorista mais um para o passageiro), uma característica comum a toda a linha 206 e 207 nacional. 


O rádio single-DIN poderia ser operado também pelos engenhosos comandos-satélite fixados na parte direita da coluna de direção. Neste exemplar, há CD Player, MP3 e função RDS (Radio Data System), que exibe informações de texto na tela do aparelho.


Já a tampa do porta-luvas contava com porta-copos, um nicho para guardar objetos menores e nove porta-moedas. Acima deste habitáculo também existia um espaço aberto que poderia ser utilizado para acomodar objetos pequenos.


Os dois para-sóis traziam espelhos, com tampa e porta-documento na peça do lado do motorista. Entre as sombreiras ficava a iluminação de teto.


Com iluminação alaranjada, o quadro de instrumentos trazia como informações o conta-giros à esquerda, o velocímetro à direita e, em um círculo central, o termômetro do líquido de arrefecimento do motor e a indicação do nível de combustível. Mais abaixo ficavam a tela do hodômetro total/parcial e as luzes-espia. Já a tela na parte superior do painel exibia o relógio de horas.


A chave, de corpo simples, conta com um chaveiro com botões para travar e destravar as portas.


A vida da Hoggar no Brasil foi curta: ela durou até 2014, ano em que passaram a ser obrigatórios os airbags frontais e freios ABS para todos os carros novos. Na picapinha da Peugeot, só os airbags estavam disponíveis, mas apenas como opcionais. Além disso, a Hoggar cometia a proeza de conseguir vender menos do que a Courier, que naquela época já estava bem defasada (a última reestilização da picape da Ford ocorreu no ano 2000), mas ainda era considerada uma opção mais confiável pelo público brasileiro. É necessário que se diga que a picape da Peugeot, fabricada em Porto Real (RJ), já não tinha nada a ver com os primeiros importados franceses trazidos para nosso País, sendo um produto tropicalizado e adaptado para as condições das vias brasileiras. Contribuiu para afundar a imagem da Hoggar a estratégia de marketing mal-planejada, com o péssimo "comercial do risoto".


Dizem as más-línguas que, depois do fracasso da Hoggar, a Peugeot do Brasil perdeu a autonomia concedida pela matriz para desenvolver automóveis exclusivos para nosso mercado. Um fim melancólico para um produto que a Peugeot esperava que dominasse pelo menos 10% do segmento.

Impressões ao dirigir


Se não fosse pela caçamba (longa e que toma um pouco da visão pelo retrovisor interno), quem dirige a Hoggar poderia jurar que está conduzindo um Peugeot 207. A direção hidráulica exige um pouco mais de esforço em manobra, mas o volante, de plástico espumado, tem boa pega. Conta-giros e velocímetro possuem fácil leitura, mas é preciso olhar mais atentamente para ver em que graduação está o nível de combustível, pois o mostrador é pequeno. A posição de dirigir é boa. Ruim é ter que olhar para baixo para saber onde estão os botões dos vidros elétricos no console... Pelo menos eles tem acionamento temporizado segundos após desligar a ignição e descem alguns centímetros quando uma porta é aberta, para o alívio da pressão da cabine.


Este exemplar da Hoggar foi adquirido de Goiás, e o primeiro dono a comprou sem ar-condicionado. Com os pneus no Piauí, uma das primeiras (óbvias) providências do Herman foi instalar o aparelho, que inclusive gela bastante a cabine. Com o espaço disponível atrás dos bancos, o ambiente interno da Hoggar não chega a ser claustrofóbico: é até possível deslocar o assento significativamente para trás e o estepe também cabe tranquilamente atrás do banco.


A disposição do motor 1.4 8v da Hoggar, como até era de se esperar, se concentra nas três primeiras marchas. Em quinta marcha, por exemplo, as retomadas lembram as de um carro 1.0 aspirado: você pisa e ela demora a responder. Mas o conjunto de câmbio da picape da Peugeot se destaca bastante: é bem fácil encontrar as marchas e o pedal da embreagem também exige pouco esforço. O conjunto de suspensão também é competente e torna a Hoggar apta a enfrentar a buraqueira nossa de cada dia.

Vem conferir a Galeria de Fotos da Peugeot Hoggar 1.4 8v XR 2011!



Comentários